Foi por influência do Rafael Algures que assisti o primeiro episódio da série Cosmos, da National Geographic Channel com Neil deGrasse Tyson. Não, eu não fui um (ou não me lembro de ter sido) dos espectadores da série original, apresentada por Carl Sagan, aquele mesmo de "O mundo assombrado pelos demônios", um libelo em defesa da Ciência (com "C" maiúsculo mesmo) na vida humana - minha introdução no pensamento científico na infância veio da Enciclopédia Anglo-Brasileira Júnior, cujos verbetes eu lia com devoção.
Tendo contato então com essa iniciativa pró-ciência tardiamente, falo agora de minhas primeiras impressões sobre o episódio, e algumas reflexões vindas dele.
Admito a minha ignorância no que tange às ciências "duras": a Física, a Astronomia, etc, etc. Antes da estréia de Cosmos, Neil deGrasse, para mim, era apenas um meme de internet. Me surpreendi não só em saber que era um sujeito conhecido, como um dos mais proeminentes astrofísicos norte-americanos. Parafraseando Gervereau, muito se perde por não se dizer o óbvio sobre o visto, e o óbvio aqui no caso é que deGrasse é negro. Acho de uma importância sem tamanho um vulto científico tão considerado pertencer a uma minoria social como a dos negros, tão habitualmente desprovida de visibilidade e de posições que validem a sua igualdade de capacidades com a maioria dominante.
Mas não é esse o ponto central que eu quero abordar. Felipe Albertao, no Shanzhaier, publicou um texto interessantíssimo, motivado pela estréia da série, sobre a dificuldade, enfrentada pelas classes menos favorecidas da população, em acessarem aparatos culturais disponíveis. Dificuldades econômicas, dificuldades educacionais, enfim. O que o Felipe denuncia, em última análise, é a dificuldade que as pessoas oriundas das classes mais pobres têm em romper o ciclo de miséria (cultural e social) em que estão inseridas. Os comentários da internet são os comentários da internet, e neles o texto do Felipe recebeu críticas duras por ter "personalizado" o processo de exclusão: para ele, a culpa da dificuldade de acesso de Alice aos bens culturais é da elite. Concordo com o ponto onde ele quis chegar, mas também concordo com as críticas: existe uma elite? Existe, não vou negar. Bens culturais em nosso país são profundamente elitizados? São - e você pode fazer o esforço que for, que não conseguirá refutar essa. O que eu discordo é se de fato existe uma "guilda", uma organização corporativa composta pela "elite" e que, deliberadamente, dificulta o acesso aos bens. Talvez seja outro ciclo (se Alice está inserida no ciclo da miséria, talvez nossa elite cultural também esteja inserida no ciclo da "bonança", que a impede de ver os excluídos e os mecanismos de exclusão - veja qualquer discussão sobre cotas em universidades e comprove essa cegueira).
Voltando ao episódio de Cosmos, é um desbunde conceitual e visual. Acostumado pelas Ciências Sociais a olhar para o chão, tive dor de cabeça quanto deGrasse me levou a olhar para o céu daquele tamanho. Obviamente, me senti minúsculo. Um humanozinho desprezível, vivendo num grão de areia minúsculo no meio de um insensível deserto do Saara. Uma sensação terrível! Entretanto, (e palmas para a equipe de criação) o episódio termina com deGrasse mostrando a agenda de Carl Sagan, salvo engano do ano de 1978. Nela, Sagan reservara um sábado para encontrar-se com o ainda adolescente Neil deGrasse. Carl já era famoso na ocasião, com livros e exposição midiática nas costas, mas naquele dia dispôs-se a mostrar a Universidade de Cornell, onde trabalhava, ao jovem de periferia interessado em conhecer aquele mundo. Pronto! Eu estava salvo! A agenda de Sagan e a importância que aquele encontro teve na vida de Neil deGrasse Tyson me salvaram da pequenez que a imensidão do universo me havia condenado! São bilhões de estrelas, de planetas, de satélites naturais, mas cada pessoa conta. O que se faz a alguém conta muito.
Quem foi o Carl Sagan da minha vida? Quem foram os Carl's Sagan's da minha vida? O texto do Felipe linka uma entrevista em que deGrasse conta que seus pais o levavam a todo tipo de lugar "cultural" quando criança, e que o ato de Carl Sagan naquele sábado veio se somar àqueles esforços. Pois bem: hoje estou às portas de terminar meu mestrado na ciência que escolhi, com o orientador e o tema que eu quis, numa das maiores universidades do país - a mesma em que me graduei. Sim, eu tenho muito orgulho disso. Muito orgulho porque os meus pais não cursaram faculdade por falta de condição financeira. Tampouco meus avós antes deles. Na minha família mais próxima (a materna) eu sou simplesmente o segundo a ter diploma de nível superior, o primeiro numa universidade pública. Sempre estudei em escola pública e nós nunca tivemos dinheiro para além disso. Passamos fome. Aos 8 anos de idade, andava alguns (muitos para a criança que eu era) quilômetros pra ir a escola porque não tínhamos dinheiro para o ônibus. E eu cheguei aonde muita gente com melhores condições não chegou. Assim como os pais de deGrasse, à minha mãe cabem os méritos de ter disponibilizado tudo (lembra da enciclopédia anglo-brasileira lá em cima?): quando nossa situação financeira melhorou um pouquinho, nossa "ostentação" (eita palavra da moda) era ter assinatura de revistas e fazer parte do Círculo do Livro. Se alguns colegas da escola tinham a assinatura da Turma da Mônica, eu até comprava muito gibi na banca, mas assinatura em casa mesmo era da Globo Ciência.
Na adolescência, tive contato com muitas pessoas inteligentes e que, diferentes da minha mãe, tinham estudado mais. Eram padres. Eu quis ser um também. Por ironia (ou não) do destino, foi um deles que, ao emprestar livros para que eu e um amigo discutíssemos num pequeno "grupo de leitura" improvisado na sacristia, trouxe a peste que me afastou da igreja: foram das mãos do padre Marcelo que saíram "Admirável Mundo Novo" e "1984", livros que mudaram profundamente minha visão de mundo. Antes mesmo ele me emprestara "O mundo de Sofia", acusado por alguns de querer fazer até um poste filosofar. Pois, poste ou não, fez aquele garoto que eu era pensar fora da caixa.
Essas pessoas fizeram muito para me colocar fora do ciclo - e me colocaram. Iniciaram um processo de crescimento tão grande que a caixa que me oprimia, que oprimiu os meus pais antes de mim, e antes deles meus avós, já não me cabe mais - e não vai passar nem perto de conter meus filhos, e os filhos deles depois. Mudou o destino. Muitos dos meus colegas de escola, muitos dos meus amigos da rua, da infância, foram ficando pelo caminho: na fila da largada, as chances me colocavam junto deles, mas deu a zebra.
Com todas as dificuldades, eu sei que a Alice do texto do Felipe vai romper o ciclo: ela foi "mordida" pela peste e acabou tendo a quem dar a mão, como eu tive, como deGrasse teve - sem termos nascido em berços esplêndidos.
Mas a questão é: e nós, temos dado a mão a alguém? Se a ciência é uma construção colaborativa, fruto do trabalho de toda humanidade (por isso os textos acadêmicos são sempre escritos na primeira pessoa do plural) não é nossa obrigação fazer isso? Ajudar a passar a tocha?
Estamos cumprindo nossa obrigação e, cumprindo, honrando mais uma vez aqueles que nos tiraram da ignorância e da miséria? No meu caso, acho que não. E já passou da hora de anotar o nome de alguém na minha agenda de 2014....
Quem foi o Carl Sagan da minha vida? Quem foram os Carl's Sagan's da minha vida? O texto do Felipe linka uma entrevista em que deGrasse conta que seus pais o levavam a todo tipo de lugar "cultural" quando criança, e que o ato de Carl Sagan naquele sábado veio se somar àqueles esforços. Pois bem: hoje estou às portas de terminar meu mestrado na ciência que escolhi, com o orientador e o tema que eu quis, numa das maiores universidades do país - a mesma em que me graduei. Sim, eu tenho muito orgulho disso. Muito orgulho porque os meus pais não cursaram faculdade por falta de condição financeira. Tampouco meus avós antes deles. Na minha família mais próxima (a materna) eu sou simplesmente o segundo a ter diploma de nível superior, o primeiro numa universidade pública. Sempre estudei em escola pública e nós nunca tivemos dinheiro para além disso. Passamos fome. Aos 8 anos de idade, andava alguns (muitos para a criança que eu era) quilômetros pra ir a escola porque não tínhamos dinheiro para o ônibus. E eu cheguei aonde muita gente com melhores condições não chegou. Assim como os pais de deGrasse, à minha mãe cabem os méritos de ter disponibilizado tudo (lembra da enciclopédia anglo-brasileira lá em cima?): quando nossa situação financeira melhorou um pouquinho, nossa "ostentação" (eita palavra da moda) era ter assinatura de revistas e fazer parte do Círculo do Livro. Se alguns colegas da escola tinham a assinatura da Turma da Mônica, eu até comprava muito gibi na banca, mas assinatura em casa mesmo era da Globo Ciência.
Na adolescência, tive contato com muitas pessoas inteligentes e que, diferentes da minha mãe, tinham estudado mais. Eram padres. Eu quis ser um também. Por ironia (ou não) do destino, foi um deles que, ao emprestar livros para que eu e um amigo discutíssemos num pequeno "grupo de leitura" improvisado na sacristia, trouxe a peste que me afastou da igreja: foram das mãos do padre Marcelo que saíram "Admirável Mundo Novo" e "1984", livros que mudaram profundamente minha visão de mundo. Antes mesmo ele me emprestara "O mundo de Sofia", acusado por alguns de querer fazer até um poste filosofar. Pois, poste ou não, fez aquele garoto que eu era pensar fora da caixa.
Essas pessoas fizeram muito para me colocar fora do ciclo - e me colocaram. Iniciaram um processo de crescimento tão grande que a caixa que me oprimia, que oprimiu os meus pais antes de mim, e antes deles meus avós, já não me cabe mais - e não vai passar nem perto de conter meus filhos, e os filhos deles depois. Mudou o destino. Muitos dos meus colegas de escola, muitos dos meus amigos da rua, da infância, foram ficando pelo caminho: na fila da largada, as chances me colocavam junto deles, mas deu a zebra.
Com todas as dificuldades, eu sei que a Alice do texto do Felipe vai romper o ciclo: ela foi "mordida" pela peste e acabou tendo a quem dar a mão, como eu tive, como deGrasse teve - sem termos nascido em berços esplêndidos.
Mas a questão é: e nós, temos dado a mão a alguém? Se a ciência é uma construção colaborativa, fruto do trabalho de toda humanidade (por isso os textos acadêmicos são sempre escritos na primeira pessoa do plural) não é nossa obrigação fazer isso? Ajudar a passar a tocha?
Estamos cumprindo nossa obrigação e, cumprindo, honrando mais uma vez aqueles que nos tiraram da ignorância e da miséria? No meu caso, acho que não. E já passou da hora de anotar o nome de alguém na minha agenda de 2014....


Muito maneiro o teu texto, Lucas. Muito maneiro.
ResponderExcluirE a tua história me fez pensar não só na ciência "dura", mas na ciência "mole", praticamente "gasosa", aquela das ficções que te que fizeram pensar fora da caixa. Penso que existem tantas ciências, umas aparentemente mais sólidas, outras parecendo quase etéreas, mas todas igualmente indispensáveis pra nossa descoberta (e transformação) do Mundo.
Conversas pra um dia se ter na mesa do boteco com um chope bem gelado.
Boa sorte e bom trabalho para você na sua dissertação.
Forte abraço!